Brasil


04/12/2019

Como vive um jovem em Paraisópolis

Moradores caminhando em rua de Paraisópolis Direito de imagem EPA
Image caption Distrito onde Paraisópolis está inserida não tem bibliotecas, cinemas ou parques públicos

Nenhuma biblioteca. Também não há parques ou salas de cinema.

O distrito onde fica Paraisópolis também fica em primeiro lugar em toda a cidade com o maior tempo de espera para matricular uma criança na creche. Não possui nenhum equipamento público de cultura, enquanto no Morumbi a média é de 5,83 equipamentos para cada 100 mil habitantes e o bairro conta até com um museu.

Esses dados oficiais são referentes ao ano de 2018 e foram compilados no Mapa da Desigualdade, da Rede Nossa São Paulo.

Questionada porque há essas diferenças tão marcantes entre locais tão próximos como Paraisópolis e Morumbi, a prefeitura não respondeu. Também não disse quais são os projetos que tem para a região nos próximos anos.

Entretanto, a prefeitura informou que a Vila Andrade foi priorizada no atendimento a creches e que zerou a fila em 2019. Há três unidades básicas de saúde no bairro, mas a administração não informou quais ações foram tomadas para reduzir a espera para consultas.

A difícil busca pelo lazer

De todo modo, ser jovem na segunda maior favela de São Paulo, onde vivem mais de 100 mil pessoas, é um desafio em busca de lazer. Sem opções, jovens ouvidos pela BBC News Brasil dizem que chegam a se deslocar mais de 10 km para chegar a um parque ou cinema, por exemplo.

As poucas ações culturais e opções de lazer, esportivas e profissionalizantes que existem dentro de Paraisópolis não são iniciativas do poder público, mas sim promovidas por ONGs e empresas privadas.

Direito de imagem EPA
Image caption Moradores não contam com opções de lazer

A estudante Andressa Viana de Souza, de 18 anos, diz que um de seus passeios preferidos é visitar parques, mas que a opção mais próxima de Paraisópolis é o Ibirapuera, a uma hora de transporte público.

"Aqui não tem nenhum parque com uma boa estrutura. Só umas pracinhas. Além da distância, a gente ainda tem que pagar a condução (R$ 8,60 ida e volta), que para mim não faz falta, mas tem muitas famílias numa situação muito mais difícil que não têm condições", afirmou a estudante.

A jovem também é privilegiada por participar da Orquestra Paraisópolis, um dos projetos oferecidos na favela. Graças ao projeto, ela ainda ganha dinheiro fazendo apresentações, como a deste fim de ano no shopping Granja Viana, em Cotia, na região metropolitana da capital.

Ao citar a falta de opções culturais e de lazer, Souza lembra do Baile da 17, ou Dz7, onde nove pessoas morreram pisoteadas após ação da Polícia Militar no último fim de semana.

Para ela, o pancadão promovido pelos próprios moradores, que chega a reunir dezenas de milhares de pessoas, é uma das raras opções acessíveis de diversão para os jovens que vivem na favela.

Direito de imagem Arquivo pessoal
Image caption Andressa Souza, que mora em Paraisópolis, conta que gasta cerca de uma hora para chegar a um parque ou ir ao cinema

"Todos os jovens daqui têm curiosidade em conhecer o baile. Eu já fui uma vez, com a minha mãe e a minha irmã, mas eu não vou mais porque não é algo que me chama a atenção. Hoje, quando chega sábado e domingo, eu combino com minhas amigas e a gente vai uma na casa da outra", disse Souza em entrevista à BBC News Brasil.

A jovem afirma que o Baile da Dz7 é tão popular porque é um point de encontro de pessoas da mesma faixa etária, de graça e numa área carente de opções. Ela reconhece que o pancadão atrapalha o sono e a mobilidade de alguns moradores, já que a festa toma algumas ruas da região, mas diz que não vê como mudar.

"É o lazer dos jovens. Não temos teatro ou casas de show. O baile cresceu muito e hoje não sei se existe uma outra forma de fazê-lo", disse.

Erick Viana, também de 18 anos, conta que ele e seus amigos sempre procuram os bailes de rua quando querem se divertir. O que eles mais levam em conta é a facilidade para chegar ao local e o custo zero.

Em nota, a prefeitura disse que reconhece o funk como movimento cultural da periferia e que vai promover um festival com cantores do estilo nos dias 14 e 15 de dezembro na Cidade Tiradentes. Para chegar ao local localizado no extremo leste da cidade, moradores de Paraisópolis passarão até três horas no deslocamento em transporte público.

Líderes comunitários e moradores dizem que as opções de lazer, cultura e educação só não são piores em Paraisópolis porque a ausência do poder público é parcialmente compensada pelas ações de ONGs, pelas iniciativas dos próprios moradores e de empresas privadas. São dezenas de projetos musicais, cursos profissionalizantes e até ensino fundamental e médio oferecidos na favela por escolas particulares.

Entre as ações e eventos culturais, há o Ballet Paraisópolis, a Orquestra Paraisópolis, o Favela Music Festival, a Batalha de Rimas, o Cineclube e a Mostra Cultural de Paraisópolis. O principal equipamento público que oferece algo nesse sentido é o Centro Educacional Unificado (CEU), da prefeitura, que possui aulas de artes marciais e esportes menos comuns no Brasil, como esgrima, rúgbi e ginástica artística.

O problema, segundo relatado pelos jovens ouvidos pela reportagem, é que há poucas vagas para muita procura.

Desigualdade e planejamento urbano

Com ruas estreitas, algumas com esgoto a céu aberto, e calçadas em que mal cabem uma pessoa, os moradores de Paraisópolis não enfrentam problemas apenas quando assunto é lazer. A estrutura urbana, como todo o mais na região, possui deficiências.

A coordenadora da Rede Nossa São Paulo Carol Guimarães afirma que isso ocorre por diversos fatores que resultaram numa desigualdade histórica entre a comunidade e os bairros vizinhos. A área contornada por condomínios de alto padrão passou a ser ocupada de forma irregular a partir da década de 1950 e desde então cresce sem planejamento.

"Desde o começo, a ocupação teve dificuldades para regularizar a área e não teve um olhar pensado para cultura e outras áreas. A classe mais alta do distrito não precisa desses dispositivos de lazer porque usa tudo privado. Já a população da favela, a mais pobre, não tem voz política de reivindicação e fica sem essa demanda", afirmou Guimarães.

A coordenadora explica que um dos principais motivos de tantas pessoas morarem em Paraisópolis, além do baixo custo de moradia, é o fácil acesso aos distritos vizinhos, que possuem as maiores médias de empregos formais da cidade, como Morumbi, Itaim Bibi, Lapa e Santo Amaro.

"A Vila Andrade tem a maior porcentagem de favelas em relação a domicílios da cidade. Essa falta de estrutura em Paraisópolis tem muito a ver com um preconceito e uma ideia antidemocrática de planejamento urbano, pois a arrecadação do IPTU é a 13ª maior da capital por conta dos condomínios que fazem parte dele. Se o imposto arrecadado fosse usado para aquele distrito, a favela teria muito mais infraestrutura", afirmou.

Direito de imagem EPA
Image caption A falta de infraestrutura em Paraisópolis dificulta a vida dos moradores

Para ela, as mortes que ocorreram no último baile da Dz7 são "a materialização das desigualdades e preconceitos contra negros, pobres e a estigma de como o Estado deve lidar com essa situação". Guimarães disse ainda que a estrutura precária também é um reflexo da ausência do poder público.

"Um bairro é pensado de uma maneira que ele seja seguro, voltado para o pedestre. Mas quando não existe Estado, você responde à demanda da forma que pode. Mas eles estão cansados de serem resilientes e querem direitos porque pagam impostos por meio de suas compras de bens e por seu trabalho. É a periferia que sustenta a classe alta. É a mão preta que sustenta todo o sistema".

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