Brasil


05/12/2019

Paraisópolis: adolescente de 16 anos que estudava de manhã e limpava estofados à tarde atravessou cidade para ir a baile onde morreu

Denys Henrique em selfie tirada na casa dele Direito de imagem Arquivo pessoal
Image caption Denys Henrique, de 16 anos, é uma das nove pessoas que morreram após ação da polícia no Baile da 17 na favela de Paraisópolis

Um adolescente de 16 anos que cursava o primeiro ano do ensino médio pela manhã e trabalhava à tarde como lavador de estofados, Denys Henrique Quirino da Silva é descrito pela família como um garoto muito inteligente, amoroso e que tinha prazer em fazer os amigos rirem com suas piadas.

Imão de Denys, Danylo Amilcar, de 19 anos, não se conformou com o relato oficial.

Ele estava no grupo que foi recebido pelo governador de São Paulo, João Doria, após uma passeata que saiu de Paraisópolis e foi até o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual, nesta quarta-feira (4/12). Para ele, nem todas as pessoas, incluindo seu irmão, morreram pisoteadas.

Direito de imagem Governo de São Paulo
Image caption Depois de manifestação que saiu de Paraisópolis e foi até o Palácio dos Bandeirantes, Doria recebeu comissão ao lado de secretários

Durante o encontro, João Doria, o secretário da Segurança Pública paulista, general João Camilo Campos, e chefes de outras pastas se comprometeram a criar uma comissão externa para apurar as nove mortes que ocorreram no baile em Paraisópolis. Além de familiares das vítimas, a apuração paralela vai contar também com a participação de membros do Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe), OAB e organizações de Paraisópolis.

"Essa manifestação significa que a gente não vai aceitar o que eles querem e que não ficaremos calados. Mostra o tamanho da nossa força. Diante de um massacre onde nove jovens morrem sem ter cometido crime nenhum, ver tantas mulheres e crianças caminhando por pessoas que elas nem conheciam demonstra indignação e que não ficaremos quietos diante de tudo isso", afirmou Danylo Amilcar à BBC News Brasil.

Direito de imagem Felix Lima/ BBC News Brasil
Image caption "Essa manifestação significa que a gente não vai aceitar o que eles querem e que não ficaremos calados, diz Danylo Amilcar, irmão de garoto de 16 anos que morreu durante ação no Baile da 17

Só mais de uma hora depois de ter entrado no Palácio dos Bandeirantes, o grupo convenceu membros da secretaria de Governo de que eles deveriam ser recebidos pelo governador.

Baile da 17

A festa mais famosa de Paraisópolis é na verdade um pancadão embalado pelo som de carros com poderosos sistemas de som estacionados ao longo de algumas das ruas estreitas da favela. Grupos de jovens se reúnem no entorno desses veículos para dançar, beber e se divertir. De acordo com moradores ouvidos pela BBC News Brasil, há semanas em que o pancadão começa na noite de quinta-feira e se estende até domingo.

A festa já chegou a reunir cerca de 30 mil pessoas nas vielas e em quatro das principais ruas da favela. Semanalmente, o baile recebe excursões de jovens de cidades do interior de São Paulo e até de outros Estados, como o Rio de Janeiro.

Direito de imagem Felipe Souza/ BBC News Brasil
Image caption Baile feito em algumas das principais ruas de Paraisópolis já chegou a reunir mais de 30 mil pessoas

O alto barulho, no entanto, fez com que moradores se mudassem da área, dando espaço para estabelecimentos comerciais voltados aos frequentadores, como tabacarias e bares. Parte do baile é bancada por esses comerciantes.

Também há diversas denúncias de atuação do crime organizado, que se utiliza das festas para comercializar drogas ilegais. O Baile da 17 foi criado no início dessa década nas ruas de Paraisópolis. Segundo moradores, o número 17 é uma referência a um bar de drinks que existia na favela.

O líder comunitário de Paraisópolis, Gilson Rodrigues, que também fez parte do grupo que se reuniu com o governador diz que cobrou propostas para deixar o baile mais seguro.

"Foi uma violência o que aconteceu aqui. Não importa se houve uma perseguição ou se tinham pessoas vendendo drogas ou algo do tipo. É um absurdo usar essas justificativas para cometerem esse crime. Temos que estruturar esses bailes. O baile é ilegal há anos, então por que não se organiza já que acontece há tantos anos, isso acontece e não se resolve? O sistema está sendo falho. Ele serve para os jardins, serve para a Vila Madalena, Mackenzie, Higienópolis (em menção a bailes que ocorrem em ruas de áreas nobres), mas não serve para Paraisópolis e nem para as favelas do Brasil", afirmou.

Lenços brancos

A passeata desta quarta-feira começou na rua Ernest Renan, na favela de Paraisópolis, o mesmo local onde ocorre semanalmente o Baile da 17. A mesma região onde os nove jovens morreram após ação da PM no último fim de semana.

Antes mesmo do ato começar, as famílias das nove vítimas, com idades entre 14 e 18 anos, se emocionaram. Chorando, poucos tiveram condição de falar ao microfone conectado a um amplificador de som.

Direito de imagem Felipe Souza/ BBC News Brasil
Image caption Manifestantes agitaram lenços brancos e exibiram cartazes durante passeata de Paraisópolis à sede do governo

Entre os que se expressaram, a mensagem mais enérgica partiu de Danylo Amilcar, que questionou a versão oficial de que todas as vítimas morreram pisoteadas.

"Exigimos que todos os responsáveis (pelas mortes) sejam punidos e investigados. O que aconteceu aqui não foi uma fatalidade. Não foi sem querer. E não foi pisoteamento. O secretário da segurança pública tem responsabilidade. O governador tem responsabilidade", afirmou o adolescente com os olhos cheios de lágrimas.

O protesto começou nas ruas estreitas e lotadas de Paraisópolis, passou pelas largas e arborizadas avenidas do rico bairro vizinho do Morumbi, com mansões cercadas por muros com mais de dez metros de altura e cercas elétricas até chegar a cerca de 500 metros de uma das entradas do palácio dos Bandeirantes. O ponto final foi delimitado por uma barreira formada por policiais militares com escudos e armas que disparam balas não-letais.

Durante o trajeto, manifestantes agitaram lenços brancos entregues no início do ato e gritaram palavras de ordem contra o governo estadual e a Polícia Militar. Um dos coros mais entoados dizia: "Doria, a culpa é sua. A luta continua".

14 anos

O mais jovem entre os nove mortos no Baile da 17 foi à festa escondido da família. Gustavo Xavier, de 14 anos, passou os últimos cinco anos de sua vida sem a presença do pai, que morreu vítima de câncer.

O papel foi assumido majoritariamente pelo tio e padrinho do adolescente, Roberto Oliveira. Durante a passeata, ele falou que o garoto foi à festa por falta de outras opções de lazer perto da casa onde ele morava no Capão Redondo, a cerca de 9 km de Paraisópolis.

"Ele queria curtir como qualquer jovem e saiu escondido como a maioria dos adolescentes que vêm aqui. No sábado, ele foi na minha casa quando a gente estava fazendo churrasco e disse que iria embora. Ele era um menino muito doce, respeitoso e que nem falava palavrão", afirmou.

Oliveira sugere que seja criado pelo governo um espaço dedicado a bailes como o de Paraisópolis na cidade.

"Aqui é um lugar muito estreito para 5 mil pessoas. Eles (governo) tinham que pegar um local como o Anhembi e oferecer para os jovens fazerem o baile", disse à reportagem.

Paraisópolis

Segunda maior favela de São Paulo, a estimativa é que mais de 100 mil pessoas morem na comunidade. Cerca de 21% dos habitantes trabalham nos cerca de 8 mil comércios dentro da própria favela, segundo a associação de moradores.

Por outro lado, apesar do comércio aquecido e da fama adquirida com uma novela da TV Globo que usava suas vielas como cenário, a comunidade ainda tem uma série de problemas comuns a toda favela do Brasil, como pobreza extrema, falta de saneamento básico e violência.

Obras de urbanização estão paradas há anos, como canalização de um córrego e a construção de moradias sociais. Cerca de 5 mil famílias da comunidade vivem de bolsa-aluguel pagos pela prefeitura.

Direito de imagem Felipe Souza/ BBC News Brasil
Image caption Paraisópolis não tem nenhuma biblioteca, parques ou salas de cinema

Paraisópolis não tem nenhuma biblioteca, parques ou salas de cinema.

Por outro lado, a favela localizada no distrito da Vila Andrade na zona sul de São Paulo, é campeã em tempo de espera quando o assunto é marcar uma consulta com um clínico geral: 75 dias.

Já no rico bairro vizinho do Morumbi, que fica literalmente do outro lado do muro que o separa da favela, a espera é de apenas 1 dia. A média de espera do município de São Paulo é de 19 dias.

O distrito onde fica Paraisópolis também fica em primeiro lugar em toda a cidade com o maior tempo de espera para matricular uma criança na creche. Não possui nenhum equipamento público de cultura, enquanto no Morumbi a média é de 5,83 equipamentos para cada 100 mil habitantes e o bairro conta até com um museu.

Esses dados oficiais são referentes ao ano de 2018 e foram compilados no Mapa da Desigualdade, da Rede Nossa São Paulo.

Nos últimos anos, a União de Moradores e Comerciantes criou uma série de projetos para tentar melhorar a vida no bairro, como um banco comunitário, restaurantes populares, escolas de balé e música para crianças.

Recentemente, Paraisópolis participou da criação do G-10 das favelas do Brasil, grupo que pretende desenvolver a economia local por meio do empreendedorismo.

Direito de imagem Getty Images

Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!


Mais de Brasil

Eduardo Bolsonaro fala 'bobagem' ao acusar monopólio de armas no país, diz presidente da Taurus

Eduardo Bolsonaro fala 'bobagem' ao acusar monopólio de armas no país, diz presidente da Taurus

'Armamento é privilégio para elites': a nova estratégia de Eduardo Bolsonaro para baratear armas no Brasil

'Armamento é privilégio para elites': a nova estratégia de Eduardo Bolsonaro para baratear armas no Brasil

Após anunciar isenção de vistos para chineses, governo agora diz que caso está 'em estudo'

Após anunciar isenção de vistos para chineses, governo agora diz que caso está 'em estudo'

Longe dos holofotes, comitiva com CEO da Taurus acompanha Bolsonaro na Índia, o 2º comprador de armas do mundo

Longe dos holofotes, comitiva com CEO da Taurus acompanha Bolsonaro na Índia, o 2º comprador de armas do mundo

O que Bolsonaro e Moro ganham ou perdem com um eventual 'divórcio'

O que Bolsonaro e Moro ganham ou perdem com um eventual 'divórcio'

Caged: o que os números do emprego dizem sobre o primeiro ano da economia sob Bolsonaro

Caged: o que os números do emprego dizem sobre o primeiro ano da economia sob Bolsonaro

Chance de tirar pasta da Segurança Pública de Moro 'no momento é zero', diz Bolsonaro

Chance de tirar pasta da Segurança Pública de Moro 'no momento é zero', diz Bolsonaro

Quem são as pessoas que moram nos EUA, mas não têm nacionalidade reconhecida por nenhum país

Quem são as pessoas que moram nos EUA, mas não têm nacionalidade reconhecida por nenhum país

'Ser um nutricionista gordo não é atestado de incompetência'

'Ser um nutricionista gordo não é atestado de incompetência'

Coronavírus: Brasil corre risco de ser atingido por surto originado na China?

Coronavírus: Brasil corre risco de ser atingido por surto originado na China?

Por que especialistas aprovam, mas seguidores de Bolsonaro e Moro criticam volta do Ministério da Segurança Pública

Por que especialistas aprovam, mas seguidores de Bolsonaro e Moro criticam volta do Ministério da Segurança Pública

Por que especialistas aprovam e seguidores de Bolsonaro e Moro criticam volta do Ministério da Segurança Pública

Por que especialistas aprovam e seguidores de Bolsonaro e Moro criticam volta do Ministério da Segurança Pública

Fala de Guedes sobre desmatamento contraria ciência e até 'mundo econômico' de Davos, diz cientista

Fala de Guedes sobre desmatamento contraria ciência e até 'mundo econômico' de Davos, diz cientista

Estresse acelera surgimento de cabelos brancos, mostra estudo com participação de cientistas brasileiros

Estresse acelera surgimento de cabelos brancos, mostra estudo com participação de cientistas brasileiros

Quem é Fabio Wajngarten, o polêmico chefe da Secom de Bolsonaro

Quem é Fabio Wajngarten, o polêmico chefe da Secom de Bolsonaro

Para juristas, denúncia contra Glenn Greenwald deve ser rejeitada; entenda

Para juristas, denúncia contra Glenn Greenwald deve ser rejeitada; entenda

'Jornalismo não é crime': colunista de mídia do Washington Post comenta caso Greenwald

'Jornalismo não é crime': colunista de mídia do Washington Post comenta caso Greenwald

Inscrições para o Sisu 2020: como funciona o sistema de seleção unificado de universidades para participantes do Enem

Inscrições para o Sisu 2020: como funciona o sistema de seleção unificado de universidades para participantes do Enem

O que representam as fugas de presos ligados ao PCC no Paraguai e no Acre

O que representam as fugas de presos ligados ao PCC no Paraguai e no Acre

'Fui e continuo conservadora': o que pensa Regina Duarte, que fará 'teste' no governo Bolsonaro

'Fui e continuo conservadora': o que pensa Regina Duarte, que fará 'teste' no governo Bolsonaro

A trajetória de Regina Duarte na política, do 'estou com medo' ao convite para integrar governo Bolsonaro

A trajetória de Regina Duarte na política, do 'estou com medo' ao convite para integrar governo Bolsonaro

Da gráfica sem licitação às notas erradas, por que Enem não foi o 'melhor da história' como diz Weintraub

Da gráfica sem licitação às notas erradas, por que Enem não foi o 'melhor da história' como diz Weintraub

Por que o Paraguai é estratégico para o PCC?

Por que o Paraguai é estratégico para o PCC?

Com liberação para compra de 20 kg de pólvora por atirador, governo abre caminho para fábricas 'caseiras' de munição

Com liberação para compra de 20 kg de pólvora por atirador, governo abre caminho para fábricas 'caseiras' de munição

Fuga de cérebros: os doutores que preferiram deixar o Brasil para continuar pesquisas em outro país

Fuga de cérebros: os doutores que preferiram deixar o Brasil para continuar pesquisas em outro país

Caso Alvim é 'mais um gol contra' para imagem do Brasil no exterior, veem analistas

Caso Alvim é 'mais um gol contra' para imagem do Brasil no exterior, veem analistas

'Vamos questionar na Justiça programa cultural criado por Alvim', diz ex-ministro da Cultura

'Vamos questionar na Justiça programa cultural criado por Alvim', diz ex-ministro da Cultura

'Na Alemanha ele estaria preso': Vídeo de Alvim inspirado em Goebbels configura apologia ao nazismo, diz presidente da OAB

'Na Alemanha ele estaria preso': Vídeo de Alvim inspirado em Goebbels configura apologia ao nazismo, diz presidente da OAB

As polêmicas de Roberto Alvim, secretário de Bolsonaro que perdeu cargo após vídeo associado a nazismo

As polêmicas de Roberto Alvim, secretário de Bolsonaro que perdeu cargo após vídeo associado a nazismo

'Referência a Goebbels é impensável mesmo para extrema direita na Alemanha', diz historiador alemão

'Referência a Goebbels é impensável mesmo para extrema direita na Alemanha', diz historiador alemão

Após referência a Goebbels, secretário de Cultura Roberto Alvim diz que semelhança com discurso nazista foi 'coincidência retórica'

Após referência a Goebbels, secretário de Cultura Roberto Alvim diz que semelhança com discurso nazista foi 'coincidência retórica'

Bolsonaro promete corte, mas número de cargos e funções comissionadas não cai no 1º ano

Bolsonaro promete corte, mas número de cargos e funções comissionadas não cai no 1º ano