Brasil


30/11/2019

Quem eram os escravos 'tigres', marcantes na história do saneamento básico no Brasil

Reprodução de aquarela pintada por Jean-Baptiste Debret mostra um escravo tigre Direito de imagem Reprodução/IBRAM
Image caption Reprodução de aquarela pintada por Jean-Baptiste Debret; escravos responsáveis pelo manejo de esgoto de cidades brasileiras

Enquanto o Brasil discute uma forma de, finalmente, conseguir prover saneamento básico para toda a população, ressurge a memória de um capítulo não tão conhecido desse aspecto do país.

Nessa época, a maior parte das casas não contava com banheiros, água corrente ou algum outro tipo de instalação sanitária. Por isso, os moradores das antigas cidades faziam as necessidades em penicos e outros recipientes de metal ou porcelana.

Esses objetos ficavam sob as camas ou em armários até a manhã seguinte, quando eram esvaziados em grandes tonéis que comportavam todos os dejetos dos moradores da casa.

Os grandes tonéis, por sua vez, eram carregados nas costas por escravos, que os levavam até o mar ou a algum rio e por lá os despejavam.

Os tigres

Parte do conteúdo, que continha ureia e amônia, vazava dos tonéis e deixava marcas brancas sobre a pele negra, parecidas com listras. Por essa reação química, as marcas se pareciam com as do animal ? daí o apelido em tom pejorativo dos "tigres" ou "tigrados".

O cheiro dos tonéis, obviamente, não era agradável e fazia com que as pessoas não se aproximassem dos "tigres" enquanto os carregavam.

"A pele ficava listrada, com alternância de faixas pretas e outras descoloridas pela ação química dos dejetos. Por isso, esses escravos eram conhecidos como tigres", afirma o jornalista Laurentino Gomes, autor do livro Escravidão, sobre o tema.

"Eram escravos ou escravos de aluguel que, geralmente, eram destacados para esse tipo de trabalho", afirma o historiador Luiz Felipe de Alencastro.

Direito de imagem Reprodução/Biblioteca Nacional
Image caption Litografias antigas de Henrique Fleiuss mostram parte do cotidiano dos tigres

Esses negros podiam ser escravos comprados por seus donos ou aqueles que prestavam serviços a diversas famílias como forma de obter um rendimento extra para o dono ou para si mesmos.

A prática, muito comum na capital da época, Rio de Janeiro, também era usual em diversas cidades do país. No Rio de Janeiro, fossas eram proibidas na cidade antiga dada a proximidade do lençol freático.

Há registros da utilização dessa mão de obra no Rio até a década de 1860. Já no Recife, por exemplo, durou até 1882.

"Tempos atrás, fui visitar uma cidade paranaense chamada Guarapuava, a centenas de quilômetros do oceano. E lá também, segundo me disse um historiador, havia escravos tigres até o final do século 19", disse Laurentino Gomes.

Marcas coloniais duram até hoje

Fazendo uma avaliação histórica, houve quem associasse a exploração desses escravos "tigres" a um atraso no interesse do poder público na implementação de sistemas de saneamento básico no país.

"O sociólogo Gilberto Freyre diz que a facilidade de dispor de tigres e seu baixo custo retardaram a criação das redes de saneamento nas cidades litorâneas brasileiras", afirma Gomes.

Para Luiz Felipe de Alencastro, contudo, a mão de obra escrava não era tão barata ao ponto de se popularizar tanto no Brasil da época. "Os tigres eram gente pobre, vulnerável ou escrava, mas não era uma mão de obra barata", diz o historiador.

Para além da desumanização desses escravos, essa forma de descarte já mostrava um descaso grande com a questão do escoamento dos dejetos.

"No Rio de Janeiro, até hoje, a baía está totalmente poluída. O desprezo pela natureza vem desde esses tempos", conclui Alencastro.

À época, a consciência ambiental não era algo recorrente como hoje. No Brasil, isso se agravava por conta de uma bagagem da colonização de exploração durante mais de três séculos.

"A destruição do meio ambiente é quase tão antiga quanto a história do Brasil. O primeiro registro oficial de tráfico de plantas, animais silvestres e indígenas escravizados é de 1511, apenas uma década após a chegada da esquadra de Pedro Álvares Cabral", afirma Laurentino Gomes.

Direito de imagem Reprodução/Biblioteca Nacional
Image caption Litografias antigas de Henrique Fleiuss mostram parte do cotidiano dos tigres

No entanto, Leo Heller, relator especial da ONU para os direitos humanos à água e ao esgotamento sanitário, nota que é difícil fazer uma relação entre a utilização dos tigres e o descaso em relação ao saneamento básico.

"A preocupação com saneamento sempre houve, mas nunca foi prioritária. O que ainda existe são locais sem nenhum tipo de esgoto (...) e a figura de quem remove o esgoto", diz o especialista.

Os vestígios do período colonial e imperial, contudo, continuam vivos até hoje no país. Segundo Heller, o fim da escravidão, e com ela o desaparecimento dos chamados "tigres", não acabou com os problemas dos mais pobres e refletem a construção da sociedade atual em relação ao tema.

"Os escravos se transformaram em negros pobres, de periferia, que também não têm acesso a saneamento", diz.

No caso dos tigres, a iniciativa de Dom Pedro 2º em modernizar a então capital Rio de Janeiro ao final do período imperial, na década de 1860, dá início ao saneamento básico no Brasil ? o que começa a diminuir a utilização dessa mão de obra de maneira gradual nas cidades.

Logo, com a abolição, assim como no Rio de Janeiro, esses escravos são substituídos graças à chegada do saneamento básico e maneiras mais modernas de descarte dos dejetos. Mas, assim como os demais, eles permaneceram executando serviços de pouca qualificação.

"Apenas a liberdade não representa uma mudança completa na vida desses ex-escravos", diz o historiador Alain El Youssef, doutor pela USP.

"[Após a abolição] o Estado brasileiro não se preocupa em ofertar condições mínimas à sobrevivência, nem em inseri-los de uma maneira respeitosa na sociedade. Isso traz reflexos até hoje", afirma o historiador.

Dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, do Ministério do Desenvolvimento Regional, mostram que apenas 52% da população brasileira conta, atualmente, com acesso à coleta de esgoto. A falta de acesso ocorre principalmente em regiões mais pobres do país.

Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!


Mais de Brasil

Fundo Eleitoral de R$ 3,8 bi não vai tirar verba ?de canto nenhum?, diz relator na Câmara

Fundo Eleitoral de R$ 3,8 bi não vai tirar verba ?de canto nenhum?, diz relator na Câmara

Para moradores de Paraisópolis, vida média é 10 anos mais curta que no vizinho Morumbi

Para moradores de Paraisópolis, vida média é 10 anos mais curta que no vizinho Morumbi

O que sobrou do pacote anticrime de Moro após aprovação na Câmara

O que sobrou do pacote anticrime de Moro após aprovação na Câmara

Apesar de decisão do STF, Planalto mantém sob sigilo gastos com cartão corporativo

Apesar de decisão do STF, Planalto mantém sob sigilo gastos com cartão corporativo

Paraisópolis: adolescente de 16 anos que estudava de manhã e limpava estofados à tarde atravessou cidade para ir a baile onde morreu

Paraisópolis: adolescente de 16 anos que estudava de manhã e limpava estofados à tarde atravessou cidade para ir a baile onde morreu

'Quem a polícia defende? De que lado está?', questiona autor de foto símbolo da desigualdade no Brasil

'Quem a polícia defende? De que lado está?', questiona autor de foto símbolo da desigualdade no Brasil

'Triste saber que ela continuará atual', diz autor de foto símbolo de Paraisópolis, que volta a viralizar após mortes

'Triste saber que ela continuará atual', diz autor de foto símbolo de Paraisópolis, que volta a viralizar após mortes

Como vive um jovem em Paraisópolis

Como vive um jovem em Paraisópolis

Salário inicial de R$ 19 mil põe elite dos servidores entre 2% mais ricos no Brasil

Salário inicial de R$ 19 mil põe elite dos servidores entre 2% mais ricos no Brasil

TSE libera coleta de assinaturas digitais, mas pode não viabilizar novo partido de Bolsonaro

TSE libera coleta de assinaturas digitais, mas pode não viabilizar novo partido de Bolsonaro

Manter cultivo de maconha medicinal proibido multiplicará ações na Justiça, diz presidente da Anvisa

Manter cultivo de maconha medicinal proibido multiplicará ações na Justiça, diz presidente da Anvisa

O que é avaliado na prova do Pisa, exame de educação no qual o Brasil tem dificuldade em avançar

O que é avaliado na prova do Pisa, exame de educação no qual o Brasil tem dificuldade em avançar

Pisa: como o desempenho do Brasil no exame se compara ao de outros países da América Latina

Pisa: como o desempenho do Brasil no exame se compara ao de outros países da América Latina

FGTS e juro baixo animam consumo, mas desemprego e incerteza ainda impedem 'PIBão'

FGTS e juro baixo animam consumo, mas desemprego e incerteza ainda impedem 'PIBão'

'Fui xingada nas redes sociais por resgatar um pombo ferido'

'Fui xingada nas redes sociais por resgatar um pombo ferido'

Pisa: alunos brasileiros 'estacionam' em leitura, ciências e matemática e sofrem mais com bullying e solidão

Pisa: alunos brasileiros 'estacionam' em leitura, ciências e matemática e sofrem mais com bullying e solidão

7 a 1? Os capítulos marcantes da 'amizade desigual' entre Trump e Bolsonaro

7 a 1? Os capítulos marcantes da 'amizade desigual' entre Trump e Bolsonaro

Trump acusa Brasil de desvalorizar real e anuncia tarifa sobre aço e alumínio

Trump acusa Brasil de desvalorizar real e anuncia tarifa sobre aço e alumínio

Brasil prioriza Taiwan em visto eletrônico, abrindo caminho para crise com China

Brasil prioriza Taiwan em visto eletrônico, abrindo caminho para crise com China

Dia Mundial de Luta Contra a Aids: Mortes caem, mas 20% não sabem que têm HIV

O que é o 'Baile da 17', pancadão em Paraisópolis onde 9 jovens morreram pisoteados

O que é o 'Baile da 17', pancadão em Paraisópolis onde 9 jovens morreram pisoteados

?Falta de clima' com Bolsonaro deixa presidente eleito da Argentina de fora de encontro do Mercosul

?Falta de clima' com Bolsonaro deixa presidente eleito da Argentina de fora de encontro do Mercosul

Quem eram os escravos 'tigres', marcantes na história do saneamento básico no Brasil

Quem eram os escravos 'tigres', marcantes na história do saneamento básico no Brasil

Sífilis, a doença evitável e de tratamento barato que mata um número crescente de bebês no Brasil

Sífilis, a doença evitável e de tratamento barato que mata um número crescente de bebês no Brasil

Os brasileiros que criam aves de rapina como águias, falcões e corujas

Os brasileiros que criam aves de rapina como águias, falcões e corujas

Por que a carne continuará mais cara em 2020 (e pode piorar)

Por que a carne continuará mais cara em 2020 (e pode piorar)

Vik Muniz sobre política cultural do governo Bolsonaro: 'É só destruição, é só desmantelamento'

Vik Muniz sobre política cultural do governo Bolsonaro: 'É só destruição, é só desmantelamento'

Pastores da Universal em Angola rompem com Edir Macedo e pedem expulsão de bispos brasileiros

Pastores da Universal em Angola rompem com Edir Macedo e pedem expulsão de bispos brasileiros

Reforma mantém pensão antecipada para família de militares expulsos

Reforma mantém pensão antecipada para família de militares expulsos

O que diz a queixa apresentada contra Bolsonaro no Tribunal Penal Internacional

O que diz a queixa apresentada contra Bolsonaro no Tribunal Penal Internacional

O que acontece com investigação contra Flávio Bolsonaro após decisão do STF?

O que acontece com investigação contra Flávio Bolsonaro após decisão do STF?

De soja a briga pelo turismo, tensão envolvendo ONGs já dura décadas em Alter do Chão

De soja a briga pelo turismo, tensão envolvendo ONGs já dura décadas em Alter do Chão