Internacional


21/03/2020

Coronavírus: como a covid-19 acirrou guerra política entre EUA e China

Graphic of Xi and Trump

O novo coronavírus virou o último campo de batalha entre os Estados Unidos e a China.

Transparente

Na semana passada, um post em redes sociais chinesas e estrangeiras chamou a atenção.

"Pode ter sido o Exército dos EUA que levou a epidemia a Wuhan", disse Zhao Lijian, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, em 12 de março.

Ele estava se referindo ao novo coronavírus detectado na cidade chinesa de Wuhan em dezembro passado que se espalhou pelo mundo, causando uma pandemia de consequências ainda desconhecidas.

Direito de imagem Getty Images
Image caption Os primeiros casos de covid-19 foram registrados na China

Ao comentário, o representante do Ministério das Relações Exteriores da China anexou um vídeo do diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), Robert R. Redfield, reconhecendo no Congresso que algumas das mortes por influenza no país podem ter sido causados ??pelo novo coronavírus, sem especificar datas.

"Quando o paciente zero foi registrado nos Estados Unidos? Quantas pessoas estão infectadas? Quais são os nomes dos hospitais? Pode ter sido o Exército dos EUA que trouxe a epidemia para Wuhan. Seja transparente! Torne a data pública! Os Estados Unidos nos devem uma explicação", escreveu Zhao no Twitter.

O comentário, conforme noticiado por veículos de imprensa como o jornal de Hong Kong The South China Morning Post (SCMP), parece se referir aos Jogos Militares Mundiais, realizados em Wuhan em outubro, com a participação de mais de 100 países pouco antes da cidade se tornar ponto zero da pandemia.

Direito de imagem CDC/Getty Images
Image caption O vírus é assim, segundo essa ilustração criada pelo Centro para o Controle e a Prevenção de Doenças dos EUA

O Pentágono confirmou casos de coronavírus entre os militares na Coreia do Sul e Itália, e está se preparando para mais casos, mas nenhuma doença foi relatada entre os membros que compareceram ao evento mencionado, de acordo com o jornal The New York Times.

Os comentários do porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da China levaram ao Departamento de Estado dos EUA a chamar o embaixador chinês em Washington para consultas (medida que sinaliza uma reprimenda diplomática).

Apesar das queixas, o ministério apoiou as declarações de Zhao.

"Nos últimos dias, vimos inúmeras discussões sobre a origem do [vírus causador da doença] covid-19. Fazemos forte oposição a comentários infundados e irresponsáveis ??de autoridades americanas e membros do Congresso sobre esse assunto para difamar e atacar para a China", disse outro porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Geng Shuang, em entrevista a jornalistas.

Direito de imagem Getty Images
Image caption Geng criticou a postura americana

Embora a China não tenha questionado inicialmente a origem do surto no país, referências posteriores de sua comunidade científica mostraram outra visão.

Em janeiro, Gao Fu, diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças da China, disse que sabia que "a fonte do vírus eram os animais selvagens vendidos no mercado de animais vivos" em Wuhan.

No entanto, no final de fevereiro, o cientista Zhong Nanshan disse a jornalistas que "a epidemia apareceu pela primeira vez na China, mas não necessariamente se originou" no país, segundo a agência de notícias francesa AFP.

As insinuações geraram reações e críticas nos Estados Unidos.

"É simplesmente vergonhoso que o governo chinês não esteja disposto a assumir a responsabilidade pelo coronavírus", diz Elizabeth Economy, diretora de estudos asiáticos do Centro dos EUA para o Conselho de Relações Internacionais.

"As pessoas não culpam o governo chinês pelo fato de o coronavírus ter aparecido na China, eles culpam o governo por encobrir a epidemia e agora estar tentando disfarçar a responsabilidade pela forma como lidou com ela desde o início", diz ela à BBC.

Em fevereiro, os líderes chineses enfrentaram uma onda de críticas sem precedentes por causa da maneira como lidaram com a crise, especialmente quando o caso do médico Li Wenliang, 33 anos, veio a público.

Direito de imagem Weibo
Image caption O médico Li publicou uma foto sua em sua cama hospital nas redes sociais no dia 31 de janeiro. No dia seguinte, foi diagnosticado com a covid-19

Li, um dos profissionais da linha de frente da epidemia, tentou alertar seus colegas sobre a existência desse novo vírus, mas foi silenciado pela polícia, que o acusou de espalhar informações falsas.

O jovem médico acabou morrendo em decorrência da doença, o que despertou uma onda gigantesca de indignação nas redes sociais chinesas.

Outra teoria

Outros especialistas consultados pela BBC também consideram que os comentários do porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China culpando os militares americanas são uma resposta clara a outras teorias da conspiração promovidas nos Estados Unidos.

É o caso do senador americano do Partido Republicano Tom Cotton, que em fevereiro insistiu em vários canais que o vírus poderia ter se originado em um laboratório de biossegurança em Wuhan, hipótese amplamente contestada por cientistas.

É consenso na comunidade científica que o vírus atravessou a barreira das espécies, de animal para humano, em um dos mercados de Wuhan.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) observou que, embora o caminho exato que o vírus tomou para entrar nos seres humanos ainda não esteja claro, o SARS-CoV-2 "não era conhecido antes do surto que começou em Wuhan, na China, em dezembro de 2019".

O vírus chinês

Além das teorias da conspiração, várias declarações controversas foram dadas recentemente.

A última veio do próprio presidente Donald Trump, que em um tuíte referiu-se ao patógeno como o "vírus chinês".

A OMS recomenda não vincular um vírus a uma área ou grupo específico para evitar estigmatizações.

No entanto, o SARS-CoV-2 foi citado por vários membros do governo dos EUA como o coronavírus "chinês" ou o "vírus de Wuhan", conforme declarações do secretário de Estado, Mike Pompeo.

No caso de Trump, o governo chinês foi rápido em reagir aos seus comentários mais recentes, pedindo que ele recuasse e reprimisse suas "acusações infundadas contra a China".

Direito de imagem Getty Images
Image caption Trump se referiu ao novo coronavírus como "vírus chinês", pouco depois dos comentários de autoridades do país asiático

A imprensa oficial do país asiático, que atualmente destaca o sucesso da China na luta contra a covid-19 e a ajuda que Pequim oferece e está oferecendo a outras nações afetadas, foi além e classificou as declarações do presidente como "racistas e xenófobas".

Para os observadores de políticas chinesas, "este jogo geopolítico de atribuição de culpas é uma corrida ao abismo", segundo Bonnie Glaser, diretora do projeto Poder Chinês do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais .

"Ambos os países estão jogando para seu benefício, em vez de unir forças para derrotar um inimigo comum que não reconhece fronteiras políticas ou geográficas", disse Yonden Lhatoo, editor-chefe do SCMP, jornal de Hong Kong.

Para Glaser, além disso, é uma disputa perigosa, pois torna ainda mais difícil para os dois países gerenciarem adequadamente os problemas de seus relacionamentos, como as diferenças comerciais, que terão consequências inevitáveis ??para o resto do mundo.

"[Uma intensa competição estratégica entre os dois] aumentará a pressão sobre outros países para escolher entre os Estados Unidos e a China. A atitude atual tornará um incidente militar mais difícil de manejar", disse ele.

Longe de se acalmar, o governo chinês lançou outra "bomba" na terça-feira (17/3): a expulsão da China de jornalistas americanos de três principais jornais do país (The New York Times, The Washington Post e The Wall Street Journal), tanto no continente quanto em áreas com maiores liberdades, como Hong Kong, onde organizações que não podem atuar no continente chinês (como ONGs em defesa dos direitos humanos) geralmente têm sua base.

Direito de imagem Getty Images
Image caption Os jornalistas americanos dos três veículos afetados não poderão trabalhar nem no continente nem em Hong Kong ou em Macau, regiões com mais liberdades

A medida ? incomum em termos de escala ? responde, segundo Pequim, às limitações impostas por Washington ao número de cidadãos chineses que podem trabalhar para a mídia estatal chinesa nos Estados Unidos.

Uma decisão que a Casa Branca anunciou depois que Xi Jinping expulsou três repórteres do Wall Street Journal.

Outro morde e assopra que já afeta todas as áreas.

Crise diplomática entre Brasil e China

O alinhamento ideológico do governo de Jair Bolsonaro com o governo de Donald Trump acabou por arrastar o Brasil para o conflito diplomático.

Um tuíte em que o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), um dos filhos do presidente brasileiro, criticou a China por sua postura diante da eclosão do novo coronavírus renovou as tensões entre o governo Bolsonaro e os chineses.

A atitude de Eduardo também reverberou na política brasileira: de um lado, políticos aliados do presidente e ativistas de direita saíram em defesa do deputado, e alguns copiaram Trump ao empregar a expressão "vírus chinês" para se referir ao novo coronavírus.

Do outro, vários partidos e políticos críticos do governo lamentaram a atitude de Eduardo e exaltaram a importância da China para o Brasil.

Direito de imagem ERIK S. LESSER/EPA
Image caption Polêmica começou quando filho do presidente comparou a postura da China à atitude da antiga União Soviética após o acidente na usina de Chernobyl

O embate se iniciou na quarta-feira (18/03), quando o deputado comparou a postura da China diante do novo coronavírus com a atitude da antiga União Soviética após o acidente na usina de Chernobyl.

"Mais uma vez uma ditadura preferiu esconder algo grave a expor tendo desgaste, mas que salvaria inúmeras vidas. A culpa é da China e liberdade seria a solução", escreveu Eduardo no Twitter ao compartilhar uma sequências de mensagens publicadas pelo editor de um portal conservador que culpava o Partido Comunista Chinês pela pandemia.

A mensagem do deputado foi rebatida pelo embaixador da China no Brasil, Yang Wanming.

"As suas palavras são um insulto maléfico contra a China e o povo chinês. Tal atitude flagrante anti-China não condiz com o seu estatuto como deputado federal, nem a sua qualidade como uma figura pública especial", escreveu Yang.

O vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB-RJ) também se pronunciou sobre a polêmica.

"O Eduardo Bolsonaro é um deputado. Se o sobrenome dele fosse Eduardo Bananinha, não era problema nenhum. Só por causa do sobrenome. Ele não representa o governo", disse Mourão, em entrevista à Folha de São Paulo.

De todo modo, ao criticar a China pelo novo coronavírus, Eduardo Bolsonaro agitou as redes pró-governo num momento em que o presidente é alvo de protestos e panelaços contra sua postura diante da pandemia.

Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!


Mais de Internacional

Do nipah ao coronavírus: destruição da natureza expõe ser humano a doenças do mundo animal

Do nipah ao coronavírus: destruição da natureza expõe ser humano a doenças do mundo animal

'Gripezinha ou resfriadinho' e outras 7 frases controversas de líderes mundiais sobre o coronavírus

'Gripezinha ou resfriadinho' e outras 7 frases controversas de líderes mundiais sobre o coronavírus

Coronavírus: pressão de novos contágios faz Japão reforçar medidas de isolamento

Coronavírus: pressão de novos contágios faz Japão reforçar medidas de isolamento

Coronavírus: como obesidade pode prejudicar combate e facilitar contágio

Coronavírus: como obesidade pode prejudicar combate e facilitar contágio

?Absurdo total?: cientistas condenam 'teoria' espalhada na internet de que 5G transmite coronavírus

?Absurdo total?: cientistas condenam 'teoria' espalhada na internet de que 5G transmite coronavírus

Coronavírus: premiê britânico Boris Johnson passa a noite na UTI

Coronavírus: premiê britânico Boris Johnson passa a noite na UTI

Coronavírus: premiê britânico Boris Johnson é internado na UTI

Coronavírus: premiê britânico Boris Johnson é internado na UTI

Coronavírus: Chile mantém baixo número de mortes, mas respiradores são ?calcanhar de Aquiles?

Coronavírus: Chile mantém baixo número de mortes, mas respiradores são ?calcanhar de Aquiles?

Coronavírus: boates de Berlim tentam sobreviver com baladas 'virtuais'

Coronavírus: boates de Berlim tentam sobreviver com baladas 'virtuais'

Cinco motivos pelos quais pandemia de coronavírus pode não ser boa para o meio ambiente

Coronavírus: primeiro-ministro britânico é internado para realização de exames

Coronavírus: primeiro-ministro britânico é internado para realização de exames

Lutador de boxe perde avó dias após pai morrer de covid-19

Lutador de boxe perde avó dias após pai morrer de covid-19

As lições de três eventos catalisadores do novo coronavírus na Europa

As lições de três eventos catalisadores do novo coronavírus na Europa

Coronavírus no Equador: ?Embalamos os corpos de minha irmã e meu cunhado em sacos plásticos dentro de casa

Coronavírus no Equador: ?Embalamos os corpos de minha irmã e meu cunhado em sacos plásticos dentro de casa"

Como Carnaval ajudou a propagar coronavírus em Nova Orleans, que pode se tornar um dos epicentros nos EUA

Como Carnaval ajudou a propagar coronavírus em Nova Orleans, que pode se tornar um dos epicentros nos EUA

Coronavírus: EUA são acusados de 'pirataria' e 'desvio' de equipamentos que iriam para Alemanha, França e Brasil

Coronavírus: EUA são acusados de 'pirataria' e 'desvio' de equipamentos que iriam para Alemanha, França e Brasil

'Ainda não consegui beijar minha filha': a dura realidade de dar à luz com covid-19

'Ainda não consegui beijar minha filha': a dura realidade de dar à luz com covid-19

Bichos ganham as ruas durante quarentena humana

Coronavírus: como os EUA, com mais de 245 mil casos, se tornaram epicentro de epidemia

Coronavírus: como os EUA, com mais de 245 mil casos, se tornaram epicentro de epidemia

Coronavírus: 'O que mais sinto falta é do abraço da minha mulher e dos meus filhos', diz médico italiano

Coronavírus: 'O que mais sinto falta é do abraço da minha mulher e dos meus filhos', diz médico italiano

Dicas para o autoisolamento de um cosmonauta que passou quase 2 anos no espaço

Que países e territórios ainda não têm casos confirmados de coronavírus?

Que países e territórios ainda não têm casos confirmados de coronavírus?

Como a China usa seu sistema de vigilância para conter coronavírus

O megapacote econômico anunciado pelo governo do Peru para enfrentar a crise do coronavírus

O megapacote econômico anunciado pelo governo do Peru para enfrentar a crise do coronavírus

Mortos em casa e cadáveres nas ruas: o colapso funerário causado pelo coronavírus no Equador

Mortos em casa e cadáveres nas ruas: o colapso funerário causado pelo coronavírus no Equador

Coronavírus: por que a covid-19 afeta tanto os profissionais de saúde?

Coronavírus: por que a covid-19 afeta tanto os profissionais de saúde?

De divisão por gênero à violência policial: as duras medidas tomadas no mundo para impor quarentena

De divisão por gênero à violência policial: as duras medidas tomadas no mundo para impor quarentena

Menino de 13 anos morre por coronavírus no Reino Unido e acende alerta

Menino de 13 anos morre por coronavírus no Reino Unido e acende alerta

Governos precisam levar coronavírus 'a sério', diz brasileira ex-assessora de Trump

Governos precisam levar coronavírus 'a sério', diz brasileira ex-assessora de Trump

Por que o novo coronavírus consegue se propagar com tanta eficiência

Por que o novo coronavírus consegue se propagar com tanta eficiência

Coronavírus: quarentena de 1,3 bilhão de pessoas na Índia se torna crise humanitária

Coronavírus: quarentena de 1,3 bilhão de pessoas na Índia se torna crise humanitária

'Ele está cada vez mais violento': as mulheres sob quarentena do coronavírus com seus abusadores

'Ele está cada vez mais violento': as mulheres sob quarentena do coronavírus com seus abusadores