Internacional


13/01/2020

O mistério das centenas de milhões de dólares que desapareceram sem deixar rastro na Rússia

Broken frame Direito de imagem Tatiana Ospennikova

Um programador russo envolvido no colapso de uma grande corretora de criptomoeda afirmou que entregou todo seu patrimônio ao ser enganado por golpistas que fingiram ser agentes da FSB (agência de segurança secreta da Rússia).

É uma história digna de filme, com personagens como aficionados por tecnologia, agentes do FBI (polícia federal americana) e um oligarca bilionário ligado à guerra com a Ucrânia.

Dois amigos se dão bem no mercado

A trama começa na cidade russa de Novosibirsk em agosto de 2017, onde Alexei Bilyuchenko, ex-gerente de TI de uma rede de lojas de móveis, se mantia fora do radar após escapar por pouco de ser preso na Grécia.

Seis anos antes, ele e o sócio Alexander Vinnik, especialista em transações financeiras digitais, se encontraram na internet e tomaram uma decisão crucial que os levaria a se envolver com transações de criptomoeda.

Descritos por amigos como pessoas tímidas que preferem computadores a pessoas, Alexander Vinnik e Alexei Bilyuchenko montaram uma corretora chamada BTC-e e se tornaram famosos.

Como outras corretoras ao redor do mundo, a BTC-e oferece a investidores a chance de usar dinheiro de verdade para comprar moedas virtuais.

E diferentemente de outras empresas do setor na Europa e nos Estados Unidos, a BTC-e não pede aos clientes seus documentos, o que era atraente para investidores legítimos, mas também abria brecha para organizações criminosas lavarem dinheiro.

Clientes se amontoaram para investir na BTC-e e, segundo a organização não governamental Global Witness, em 2016, a empresa se tornou a terceira maior corretora de criptomoeda no mundo.

Os dois sócios se comunicavam online e só se encontraram pessoalmente em 2014 quando as transações diárias da empresa alcançaram US$ 2 milhões (cerca de R$ 8,1 milhões). Em 2016, quando chegaram a US$ 10 milhões por dia (R$ 40,7 milhões), deram uma festa familiar em Moscou.

Em julho de 2017, eles viajaram a lazer para a Grécia, sem saber que em seu encalço estavam agentes federais dos Estados Unidos responsáveis por investigar lavagem internacional de dinheiro.

O FBI suspeitava que a corretora de criptomoedas BTC-e estava envolvida na ocultação de fundos furtados de outra corretora de bitcoins, a Mt Gox. Especialistas em cibersegurança também afirmavam que a BTC-e estava sendo usada por um misterioso grupo russo de hackers chamado Fancy Bears.

Um mandado de prisão foi emitido em nome de Alexander Vinnik, e a polícia grega o deteve na praia, em frente a sua família.

Sua mãe ligou para Alexei Bilyuchenko, que estava em outro resort. Em pânico, ele destruiu seu laptop, o jogou no mar e embarcou no próximo voo para Moscou.

Bilionário com laços com o Kremlin

De volta a Novosibirsk, Bilyuchenko decidiu tentar se recuperar de perdas montando outra corretora, chamada Wex (World Exchange Services).

O FBI havia fechado o site da BTC-e, mas ele ainda tinha backup dos servidores e, via Wex, poderia devolver investimentos de alguns clientes da BTC-e.

Nesse estágio, segundo o depoimento que ele daria depois à polícia e ao qual a BBC teve acesso, Alexei Bilyuchenko decidiu que precisaria de proteção.

Foi então apresentado a Konstantin Malofeyev, um bilionário baseado em Moscou, com fortes laços com o Kremlin e a Igreja Ortodoxa Russa.

Malofeyev, que fez fortuna em investimentos bancários, está sob sanções dos Estados Unidos e da União Europeia por causa de acusações de ligação com líderes rebeldes no leste da Ucrânia.

Em depoimentos à polícia, Alexei Bilyuchenko afirmou ter sido convidado a Moscou diversas vezes para encontrar Malofeyev em seu escritório.

O assunto de quanto dinheiro a Wex estava gerando dominou as conversas, assim como perguntas sobre o que aconteceu aos fundos da BTC-e até a operação do FBI.

"Por diversos meses, Malofeyev demandou que eu mostrasse a ele os balanços das criptomoedas na Wex", disse à polícia.

Malofeyev nega fortemente qualquer conexão com Bilyuchenko ou a Wex.

Quem eram os homens da agência de segurança?

No verão de 2018, as transações na Wex começaram a desacelerar, e no fim daquele ano, pararam de vez.

Quase US$ 450 milhões em criptomoedas sumiram sem deixar vestígios.

Clientes furiosos cobraram a devolução do dinheiro e um deles registrou uma queixa na polícia na região russa de Chuvashiya.

Chamado para depor, Alexei Bilyuchenko contou à polícia uma história extraordinária.

Afirmou ter perdido o controle da Wex na primavera de 2018, meses antes do colapso oficial.

E disse que, em uma reunião no escritório de Konstantin Malofeyev em Moscou, foi apresentado a alguns homens que entendeu serem agentes da FSB, agência de segurança russa.

Eles o levaram a um prédio usado pela FSB, perto do Teatro Bolshoi, lhe fizeram perguntas sobre a Wex e depois o levaram ao hotel luxuoso Lotte onde disse ter ficado detido ao longo da noite.

Na manhã seguinte, segundo Bilyuchenko, ele foi levado de volta ao escritório de Malofeyev, onde foi orientado a mover os fundos administrados pela Wex para um "fundo da FSB", o que concordou em fazer e, segundo ele, na sua visita seguinte a Moscou, transferiu tudo como solicitado.

De volta a Novosibirsk, ele disse ter começado a se dar conta de ter sido vítima de golpistas, e de ter transferido o dinheiro não para os cofres do Estado, mas, sim, para parceiros de Malofeyev.

Desde que contou sua versão para a polícia, Bilyuchenko tem se mantido escondido, sob escolta privada. Ele se recusou a conversar com a BBC sobre as criptomoedas.

Bombas falsas e os milhões desaparecidos

Mas Alexei Bilyuchenko estava falando a verdade?

Alexander Terentiev, que lidera um grupo de investidores lesados, afirmou à BBC não estar convencido. Mas outros dizem ser menos céticos.

Desde o fim de novembro, cortes judiciais, prédios públicos, estações de metrô e shoppings em Moscou e São Petersburgo têm ficado paralisados quase que diariamente por causa de ameaças falsas de bomba.

Segundo reportagens da mídia russa, diversos emails desses alertas falsos incluem referências aos milhões que desapareceram da Wex e a Malofeyev.

Um comunicado veiculado pelo canal de TV de Malofeyev, o Tsargrad, classificou essas ameaças falsas como uma campanha de difamação contra ele.

"Nem Konstantin Malofeyev, nem suas companhias têm qualquer coisa a ver com o sumiço dos bitcoins, a corretora Wex ou sua gestão."

Malofeyev se recusou a falar com a BBC sobre o caso, e a FSB não respondeu aos questionamentos da reportagem.

Enquanto isso, na Grécia, dois anos após sua dramática prisão na praia, Alexander Vinnik continua preso.

Os Estados Unidos, a Rússia e a França buscam sua extradição. Ele não vê sua esposa, que agora sofre com um tumor no cérebro, há dois anos.

Seu advogado, Timofei Musatov, afirmou à BBC que o ex-multimilionário está há bastante tempo em greve de fome e agora é apenas uma sombra do que era.

Ilustrações de Tatiana Ospennikova

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